Ao Daniel

Daniel,


consternou-me seu e-mail. 
E aceito a liberdade nele oferecida para falar de algo que vai muito além do que as pessoas podem fazer neste momento. 
Sou crente (o que pode representar muito pouco neste mundo), contudo, esse fato altera todo o conhecimento e relação com a realidade que nos envolve. 
Não me refiro as megalomanias que envolvem o nome de Jesus, tampouco, às exibições de poder e milagres que fazem parte desse cardápio circense.
Refiro-me à compreensão dos valores efetivos que existem no mundo. Aflige-me, de certa forma, sua aflição, quando se percebe que não tens algo sólido, pessoal e … principalmente confiável para um momento de dificuldades. 
Levei muitos anos sem saber quem era Jesus, pois católico de nascimento, espírita por observação, e totalmente soberbo e ignorante quanto à verdade dos fatos, conduzia minha vida como se dela fosse Senhor. 
E em dificuldades recorria ao um mantra confuso e ilusório apenas por ser minha “única alternativa”. Isso não produzia qualquer alívio ou paz, era apenas uma retórica sem sentido em que estava envolvido. Mas mesmo assim, muitas coisas se resolviam, eu agradecia a um “deus qualquer” e voltava para meus “afazeres”. 
Mas, graças a Deus – Deus mesmo! – um dia Ele me encontrou – com saúde, bom emprego, bem casado, sem problemas – e me mostrou sua bondosa e misericordiosa face. Descobri-me pecador, descobri-me distante dEle, e repentinamente uma onda de paz e consolo tomou-me… encontrei na cruz de Cristo meu descanso. 
Ele me fez entender que Cristo morrera em meu lugar, logo a morte não imporia sobre mim todo seu temor. Logo a eternidade estava diante de meus olhos, e a convicção de gozar as bem-aventuranças por toda a eternidade. Essa certeza tem me confortado frente aos problemas inerentes à vida. 
Espero, e orarei, que o Senhor tenha misericórdia, não apenas do amado, mas de todos que a Ele recorrerem com a certeza de sua fidelidade e poder. 
Pois, apenas nEle há tudo que o homem necessita. 
Paulo Brasil

Línguas estranhas e o Livro de Atos dos Apóstolos


Apesar de agora estar nas prateleiras mais baixas do expositor das habilidades evangélicas, o dom de línguas por muito tempo representou o ápice de “poder e comunhão” com Deus. 

A cada urro vindo do púlpito – ou de qualquer lugar – despertava um intenso frenesi na multidão, que ávida por demonstração de poder, espraiavam suas “línguas estranhas” trazendo a euforia necessária – carnal – para reverberação dos “linguálatras” em meio a assembleia.


A reverência e a proclamação da palavra submetiam-se a balbúrdia circense em que era tomado o “culto a Deus”. Cada um fazia conforme seu próprio espírito concedia: gritos, gargalhadas, abraços, choros, dispunham da euforia em nome de Deus.  

Nas mentes  – e nos corpos suados – exalavam a soberba que, sem meias palavras, vociferavam o diagnóstico de morte a tudo que respirava ordem e decência.

Hoje, (espero, mas não sei) apenas um remanescente sobrevive ostentando a manutenção de tais poderes, a grande maioria daqueles “homens de deus” partiu para outro nicho espiritual ou mesmo volveu-se ao próprio vômito. 

São modismos evangélicos que fazem plantão em busca de “avivamento”. Quem não lembra dos dentes de ouro? Da bênção de Toronto, com suas gargalhadas e quedas santas? A bolsa de valores M&M (Malafaia e Murdock) atribuindo o valor da alma humana? Fogueira santa? e muitos outros.

Percebe-se que o espírito de Balaão – a necessidade de projeção pessoal, o enriquecimento fácil e o desconhecimento do caráter de Deus – está presente em nosso meio, e ele contribui significativamente para essas e muitas outras “esquisitices evangélicas”.

Sim, mas e o dom de línguas  como experimentam e ensinam os pentecostais procede das Escrituras? 
Mister é questionar: As Escrituras oferecem suporte a tal prática? O que elas dizem sobre tal manifestação? Vejamos o dom de línguas nas páginas do livro de Atos dos Apóstolos.



O Livro de Atos inicia com uma sequência frenética de eventos: Há o mandamento do Senhor; a promessa de um novo batismo pela vinda do Espírito Santo; sua subida aos céus; a eleição do substituto do Apóstolo Judas; e por fim a vinda do Espírito conforme a promessa. Não sabemos em quanto tempo se deram esses fatos, mas é inegável o turbilhão da narrativa.

São desdobramentos que neste Livro se iniciam, outros são apenas sequências retomadas, portanto, iniciadas em pontos anteriores do texto sagrado.

Temos que nos curvar frente algumas necessidades:
1. Precisamos empreender cuidadosa leitura, como em um novelo de linha emaranhado, puxando linha após linha, encontrando sua sequência correta, até podermos vê-lo como novelo, um único fio. Assim, chegaremos a um veredicto que harmonizará os temas retomados ou iniciados aqui. Chegando a única verdade, e essa reflita o caráter e o propósito de Deus.

2. Precisamos de discernimento – grandeza de alma e humildade de coração – pois muitos são os enganos e falácias destes dias maus, e nossos corações tendem a cooperar com o presente século mal.

3. Precisamos de coração renovado e que o Ajudador prevaleça e as Escrituras forjem nossas mentes.

“Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne, pois as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus, para demolição de fortalezas; derribando raciocínios e todo baluarte que se ergue contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo”; (2 Co 10:3-5)

E podemos afirmar que afinal temos a mente de Cristo (1 Co 2.16)

Comecemos pelo v. 4 onde fala a respeito da PROMESSA DO PAI dita aos Apóstolos. Que promessa é referida pelo Senhor? Obtemos a resposta no v.5:

“Porque, na verdade, João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias.”

A promessa compreendia um “batismo diferente do batismo de João”, pois diz: “sereis batizados no Espírito Santo”.



Há, portanto, a correspondência entre a promessa a ser cumprida – o batismo no Espírito – e o batismo que João vinha realizando em Israel.

Essa correspondência está presente em todos os Evangelhos. João, o batista, garante-nos que seu batismo com água seria substituído pelo batismo com Espírito e com fogo (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33).

“Eu, na verdade, vos batizo em água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, de quem não sou digno de desatar a correia das alparcas; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. (Lc 3.16).

Mas já àquela ocasião o cerimonial de João se mostrava transitório. João antecipa-se afirmando sua saída do cenário que se iniciava. 

“É necessário que ele cresça e que eu diminua“. (Jo 3:30)

Logo João é preso (Jo 3.18-20 e Mt 4.12) encerrando seu  ministério. Essa transitoriedade logo se fez notar. 


Foi por curto espaço de tempo que João e Jesus caminharam juntos. O desconhecimento por parte de João sobre o que se cumpria em Jesus reflete esse tempo. Talvez, por isso sua dúvida a respeito se Jesus seria mesmo o Cristo (Mateus 11).

Cumprido o ministério de João, o que ocorreu com o seu batismo? 


Em João 4.1-2, lemos que:

“Jesus, fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos)”.

Não temos motivos para acreditar que o batismo dos discípulos do Senhor diferisse da forma ou propósito do batismo de João. Os discípulos de Jesus passaram a batizar o “batismo de João”, familiarizados ficaram com o ritual.

É necessário resgatar o propósito do batismo iniciado por João: para que o Messias fosse manifestado a Israel (Jo 1.31).

O batismo de João está inserido na moldura do anúncio do Messias, portanto o batismo de João faz parte da revelação do Senhor Emanuel – Deus conosco – para Israel.

Que importância há no fato do batismo de João servir para anunciar Jesus para Israel? Toda, pois esse propósito foi estendido para o batismo anunciado pelo Senhor. 


Leiamos pois.

Ao anunciar-lhes o batismo no Espírito Santo diz:
“mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias” (1.5)

E depois, ainda sobre o batismo diz (1.8):
“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-is testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra”.

O batismo no Espírito Santo capacitaria aos discípulos para testemunhar de Cristo em Jerusalém, na Judeia, Samaria e até os confins da terra.

Apenas pela completa falta de temor e honestidade é possível esquivar-se que o batismo no Espírito Santo é infusão de poder nos discípulos para testemunhar de Cristo por toda a terra.


Há, portanto, uma correlação de propósitos entre os dois batismos: anunciar a Jesus, e agora por toda a terra. Esse ponto é a identificação e harmonia do novelo de linha.

Não me aventuro a afirmar que naquele momento tais características estivessem perfeitamente claras para os discípulos do Senhor, mas prossigamos em conhecer o Senhor. 
No Livro de Atos dos Apóstolos, cap. 2.4, está escrito sobre a chegada do Espírito Santo:
“todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas segundo concessão do Espírito Santo”;

Não há dúvidas: a vinda do Espírito Santo proporcionou aos discípulos “falar em outras línguas”. Temos aqui um questionamento oportuno: Qual a natureza da língua falada – seria humana, seria angelical? No v. 11 há  o testemunho:

“como os ouvimos falar em nossas próprias línguas?”

Nos vv. 8-11 lemos os termos: “língua que nascemos”; “próprias línguas”. Há a citação de pelo menos 12 etnias ou povos neste contexto

A despeito do detalhe exegético que envolve o termo “línguas”, o registro é de   idiomas humanos

Sobejam razões – textuais e lógicas – para afirmarmos que naquele evento – dia de Pentecostes – cumpriu-se a promessa do Pai (1.5; 2.4; 3.33-34): o batismo no Espírito Santo. Como resultado deste batismo, os discípulos de Cristo passaram a falar em diversos idiomas humanos.

A corroborar com essa tese temos o cenário da época e a missão que estava sobre os ombros dos discípulos – anunciar a Cristo por toda a terra. 


Considerando que os apóstolos eram todos judeus e que havia inúmeras nações debaixo do sol onde Cristo seria proclamado, é razoável e adequado que o Espírito Santo tenha capacitado aqueles homens a falar abruptamente em idiomas estrangeiros – das nações citadas textualmente. 


As “línguas estranhas” no Livro de Atos dos Apóstolos nada mais são  que idiomas humanos. O contexto, o texto, a lógica não permitem qualquer alusão a “línguas angelicais ou extáticas”.

Apenas o espírito de Balaão é capaz de prover a energia necessária para trocar a honra de Deus pela usura, carnalidade e impiedade que sustentam os dons “pentecostais”.
Em momento oportuno considerarei o texto de 1ª Coríntios.