Há dois evangelhos? (A Aliança com Abrão)

Voltemos a uma das questões mais fundamentais da vida (das Escrituras): A aliança que Deus fez com Abraão.

ORA, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e [tu] serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Gn 12:1-3).

Estão claramente dispostas promessas feitas para Abrão, relacionadas à (1) sua descendência, a (2) ele mesmo, e (3) à todas as famílias da terra.

Após este momento, passaram-se muitos anos e Abrão não mais cria que Deus cumprisse o que prometera. Lemos: 

“Disse mais Abrão: Eis que não me tens dado filhos, e eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro” (Gn 15:3). 

O Senhor reafirmou a literalidade sua promessa – tuas entranhas: 

“E eis que veio a palavra do SENHOR a ele dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que de tuas entranhas sair, este será o teu herdeiro”. (Gn 15:4). 


Nenhuma dúvida paira sobre a “materialidade” do herdeiro aguardado por Abraão. Por fim, lemos: “E Abraão circuncidou o seu filho Isaque, quando era da idade de oito dias, como Deus lhe tinha ordenado”. (Gn 21:4). A circuncisão, entre seus simbolismos, garante que a promessa de Deus se cumpriu literalmente. Sim, Deus em sua promessa de fazer de Abraão uma nação, a fez literalmente.
Lemos ainda em Gênesis 24:1: 

“E ERA Abraão já velho e adiantado em idade, e o SENHOR havia abençoado a Abraão em tudo”. 

As promessas quanto a Abraão, novamente, Deus as realizou em sua vida literalmente.

Deus, ainda a Abraão, na construção da nação, prometeu à sua descendência (que estava nos lombos de Abraão) dar uma terra (Gn 12.7; 13.15;15.7;17.18;24.7;26.3). 

E na história, Deus chamou à essa nação de Israel – descendentes étnicos, prometendo-lhe um Rei eterno (II Sm 7.11,13,16), e ainda mais, prometeu-lhe transformar seu caráter (natureza), o que Jeremias – Cristo também, chamou de Nova Aliança (Jr 31.-34-40).

Todas estas promessas seguiram o mesmo padrão de realização… literal. Este é o entendimento dos judeus, de Jesus, dos apóstolos. E foi o que Jesus, quando aqui esteve, anunciou. Lembram?

“E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho“. (Mc 1:15).

Pedindo para crerem no Evangelho. Um anúncio particular, exclusivo para os judeus (conforme as promessas de Deus), que reivindicava um reino literal de Jesus, em que Ele reinaria, sobre aquele povo, e naquele local, e já naquele tempoNão podemos duvidar que o anúncio trazia uma esperança real e literal dos ouvintes e da proclamação do próprio Jesus.  

Decerto não utilizamos tais argumentos, tampouco nos dirigimos com exclusividade aos judeus, tampouco, acreditamos que Deus não cumprirá suas promessas.

Sim… não anunciamos (argumento) este Evangelho, anunciamos outro Evangelho. 

Há dois evangelhos? (Sumaríssimo argumento)



Sim e Não. 

Não, se enfatizarmos o propósito maior do Evangelho, que é anunciar a vinda de Deus ao mundo, e todo o benefício trazido à humanidade. Assim, o Evangelho não tem qualquer outro propósito senão este: informar ao mundo que o Deus eterno e Todo-Poderoso esteve aqui entre nós. Nestes termos há um único evangelho.

Porém, se, por outro lado, voltarmo-nos para conteúdo [argumentação] que leva este anúncio aos povos, a honestidade nos obriga a reconhecer que SIM, há dois evangelhos. Ou seja, há um conteúdo específico nos Evangelhos que anuncia a vinda de Deus ao mundo [para aquele tempo]. Onde seu pano de fundo decorre de promessas eternas de Deus para a descendência de Abraão (terra, reino e rei). E um outro que encontramos nas Epístolas, [anuncia vinda do Senhor para um tempo à frente]. E este que anuncia vinda do Senhor para um tempo à frente, sai do âmbito particular dessas promessas para alcançar a todas as famílias da terra. 

A morte e ressurreição do Senhor, que logicamente separam os Evangelhos das Epístolas, estabelecem uma linha absolutamente profunda e inquestionável dentro das Escrituras, e dos inescrutáveis planos de Deus. 

Um aspecto simples e fundamental nesta questão, de verificação do conteúdo, mostra que a pregação de Jesus difere completamente do que atualmente pregamos: sua morte e ressurreição. E isto decorre de uma questão extremamente simples, não havia se realizado. Portanto, quanto ao conteúdo, há dois evangelhos… e isto faz sentido e muita diferença.

Veja a pregação de João, e de Jesus. E dizendo: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. (Mt 3:2 compare com Mc 1.14-15).

O que Paulo anuncia como Evangelho: … o evangelho que vos tenho anunciado; … que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. (1Co 15:1-4).

Sim, podemos afirmar que quanto ao conteúdo da mensagem há dois Evangelhos. Ainda que tenha um único objetivo. 

Insensibilidade quanto à Cruz

O capítulo 19 do Evangelho de João é o registro de um assassinato, e o mais grave, um assassinato coletivo, realizado por religiosos e homens de poder. Um sumário perfeito de toda a humanidade. Sim, foi ela quem matou o Filho do criador do universo, o Senhor de todas as criaturas.

Devemos questionar: Por que sua leitura não traz consternação, não há horror? Por que pouca, ou nenhuma importância é dada a textos que nos acusam de tamanho mal?
Podemos entender, pois um conjunto de eventos entraram no cotidiano da humanidade, os quais sem controle alteraram profundamente a percepção humana, e daí, a perda de significado do texto.   

Devemos reconhecer a enorme diferença causada por este registro durante os primeiros anos, e o que hoje presenciamos. Lá o relato transformou reinos, cidades, vidas, transformou o mundo, que até então conhecíamos.

Isso se deu porque, progressivamente e em oposição, àquela morte, surgiram movimentos diversos para torná-la sem relevância.

A conquista desses ideais ocorreu em várias frentes. A proposta evolucionista negou a existência do Criador, conferiu ao homem uma falsa divindade, e por ela a liberdade para determinar sua própria felicidade. Logo, a permissividade, a baixa moral, foi elevada à “religiosidade”, o que fez com que a vida, ou a morte, fosse banalizada… o passado e o futuro perderam sentido.

Por outro lado, as novas tecnologias forjaram uma dinâmica mental, concedendo ao presente, unicamente ao presente, o momento de viver a vida. E, sem qualquer reflexão, as emoções, repetições e euforia garantiram a satisfação. Agora, as novidades passaram a trazer a felicidade, consequentemente, elas determinaram a verdade. Sem passado, a nova esperança caduca em seu próprio dia. 

Logo, a ilusão do momento, lançou fora a história passada e a esperança futura.
Esse cenário, sem passado e sem futuro, faz com que a crucificação do Senhor não exerça qualquer interesse ou influência entre aqueles que a ouvem. É essa nova humanidade, onde a vida e a morte perderam o sentido.

Inconscientemente, o homem retira de sobre si a responsabilidade que a história lhe impõe. E o engano que o envolve, ao mesmo tempo, dá sentido à sua desesperança. Ainda, que a morte lhe espreite, como uma permanente testemunha, acusando-o por haver rejeitado o autor da vida.

Que o Senhor lhes recobre a visão.

E aquele que viu e testificou, e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós creais (Jo 19.35)